domingo, 25 de dezembro de 2011

Carta - nascimento!

Amado sobrinho,
Que alegria saber que você vem para esse mundo... Realmente não tenho ideia do que sua mãe e seu pai sentem, mas acredito que seja algo perto do indefinível, porque eu sinto meu ser todo pulsar de amor por você.
Quero que você saiba que seu coração estará sempre aqui dentro do meu: a cada prece, a cada nova inspiração, a cada novo amanhecer...
Estou feliz porque você terá uma mãe linda, de olhos luminosos, de garra e de uma integridade colorida, você conhecerá uma mulher que faz tantos movimentos ao mesmo tempo e que tem a habilidade de torná-los todos uma coreografia harmoniosa.
Estou feliz porque você terá um pai lindo também, de uma tranquilidade do mar na bonança, de um humor gostoso e de uma força incessante.
Você terá avós maternos parceiros, presentes e muito fofos! Você terá avós paternos há alguns quilômetros de distância, mas muito amorosos e que vão contar os dias para te encontrar sempre que puderem!
Você terá tios loucos por você... loucos para brincar, para rir e aprender com cada descoberta sua.
Você terá essa tia aqui, que embora more em outro estado, vai te ver sempre que puder, vai te encher de livros, de histórias, de músicas e de danças... E está ansiosa para aprender novos passos com você!

Te amo, Davi! Seja bem vindo!

Essa música, eu dedico à você:

Sua mãe e eu
Seu irmão e eu
E a mãe do seu irmão
Minha mãe e eu
Meus irmãos e eu
E os pais da sua mãe
E a irmã da sua mãe
Lhe damos as boas-vindas
Boas-vindas, boas-vindas
Venha conhecer a vida
Eu digo que ela é gostosa
Tem o sol e tem a lua
Tem o medo e tem a rosa
Eu digo que ela é gostosa
Tem a noite e tem o dia
A poesia e tem a prosa
Eu digo que ela é gostosa
Tem a morte e tem o amor
E tem o mote e tem a glosa
Eu digo que ela é gostosa
Eu digo que ela é gostosa
Sua mãe e eu
Seu irmão e eu
E o irmão da sua mãe
(Caetano Veloso - Boas vindas)

todo amor em flor,
assinado: tia dançadeira

sábado, 25 de junho de 2011

Carta - futuros namorados

Queridos namorados (eu e você),

Hoje assistimos a um filme precioso e quero deixar registrado um pouco das sensações que me povoaram e um tanto do que presenciei em nossos olhos.
Gostaria de assistí-lo novamente daqui uns anos para ver o que nascerá então dos nossos corações, podemos combinar isso, o que acha?
O casal do filme vive um período difícil de desencontros, de mudança, de mortes... Você sabe como isso faz sentido pra mim, né? Os finais, os ciclos, as mortes de tempos em tempos... O título em português é uma espécie de pegadinha... a mesma história que ficaram nos contando, enquanto crescíamos: de que "os opostos se atraem", de "viver feliz para sempre" e blá, blá, blá...
Ninguém nos disse que tudo acaba, tudo tem um fim, porque tudo tem um começo! Ainda que pareça óbvio, não é nada clichê. É quase cético e mal educado falar dessa forma...
No entanto, eu olho para isso e vejo riqueza, vejo brilho, vejo raridade. O filme é ousado, cru e delicado...
Um privilégio dar-se conta da morte. Antes dos 30 anos podemos contemplar esse ensinamento: da mudança, da impermanência, da transformação, da morte... ou de outros nomes que queira dar, mas olhar para o fim.
O casal na tela vive isso, eles não são mais aqueles de 5 anos atrás que cantaram e dançaram na rua, que se olhavam tão apaixonadamente e sem ar. Agora eles se esbarram e isso já causa desconforto.
Uma frase do filme ficou gravada (mais ou menos assim): "Como podemos confiar nos sentimentos se, de repente, eles desaparecem?"
Penso que é aí que está o mistério e a preciosidade toda: não vamos confiar em nossos sentimentos! Eles mudam... assim como o desenho das nuvens, que muda de acordo com o olho de quem olha, de acordo com a velocidade do vento...
Vamos confiar no céu! É dali que surge o vento, a nuvem, as cores, nossos olhos, as sensações... Há poucos momentos de céu liberto no filme... as paredes, a confusão e o ego impedem-os de ver além, de parar, de silenciar. É quase bobo ver que foi tudo construído, que a brincadeira era uma, daí mudou e eles não viram e estão lá se debatendo em jogos sem sentido. As discussões não fazem sentido! São vazias... o conteúdo é vazio, o que está transbordando é a energia de cada um e dos dois...
Uma imensa felicidade me invadiu quando os fogos começaram, nosso abraço me lembrou o abraço das relíquias: protegido, livre e presente.
Nesse momento não quero ver outra imagem, nem ouvir outro som... estou encharcada do cinema, da música, do sapateado, da Cindy, do Dean, de mim e de você. E fico aqui... sentindo tudo, até secar...

com amor confiante no céu,
assinado: Preta

terça-feira, 3 de maio de 2011

Carta - de saudade e de parceria

Mano meu,

Voltei do trabalho ouvindo umas das suas músicas... "um homem quando está em paz não quer guerra com ninguém" e que saudade me invandiu! Saudade do seu sorriso, da sua voz (ao vivo!), das nossas conversas, das vezes que cozinhas juntos, rimos juntos, dançamos juntos e causamos juntos na balada dançando côco em meio à batida eletrônica ;-)
Que parceira boa, né? Uma diversão leve e verdadeira, uma lealdade e amor sem condições. "Toda positividade eu desejo à você", desejo que o mar possa te ensinar, entre outras coisas, que somos mar... e nesse sentido ondas diferentes, ora mais forte, mais alta, mais leve, marolinha... ou de ressaca, quase um perigo. Nesse momento é importante lembrar: somos o mar, podemos nos desfazer e refazer a cada instante.
Meu irmão, parceiro de tanta brincadeira, estou aqui, na selva de pedras, mas dentro de mim levo o mar e o sol... e levo você, porque sem você não sou inteira.

saudade e amor,
assinado: Lóri

quarta-feira, 1 de setembro de 2010

Carta - amor nascido e criado

Manos meus,

Estou devendo essa carta... As férias terminaram faz mais de um mês e fiquei remoendo todas as letras e acentos dentro de mim. Posso me justificar: ao retornar senti uma tristeza que nunca havia sentido em alguma volta de viagem de férias... Passei aquela terça querendo que o sol se escondesse, querendo não desfazer as malas cheias de blusas e cachecóis do frio sulista...
Os dias que passamos juntos, apenas nós três, foram inesquecíveis e pareciam até intermináveis de tão grandes e fundos de alegria. O pôr do sol presenciou toda a brincadeira, todos os risos e conversas.
Sou muito orgulhosa da nossa confiança... do quanto somos confidentes um ao outro, do quanto nos aceitamos, nos respeitamos e nos amamos. E digo, não esse amor piegas, sim um amor de opinião e firmeza, mas de acalanto, de aconchego e de criança.
Penso que a vantagem desse amor nascido de irmãos, seja o fato de que podemos sempre nos olhar como crianças novamente, e lembrar que fomos tantos, somos tantos outros, seremos ainda mais e ao mesmo tempo não esperamos nada. Nós somos ali, bem na frente um do outro, ou bem ao lado um do outro, ou enquanto aprendemos a brincar um jogo de mãos cantarolando um côco! Ah e isso mais de meia noite ;-)
É uma lindeza mesmo... é uma escolha. Nós criamos isso... Caminhamos, cozinhamos, bebemos, brincamos, cantamos, rimos, vimos filme, dançamos... e tantos outros verbos.
Os dias que vivemos juntos foram perfeitos, inteiros e felizes. A brincadeira de côco, o segredo contado em voz alta, o abraço sem hora marcada, as músicas no violão desafinado, as caminhadas iluminadas pelas ruas da cidade fria, o chimarrão compartilhado e aprendido, a não vontade de dormir e querer dormir tudo junto num sofá-cama muito apertado e duro!
Agradeço por vocês existirem, vocês são a minha riqueza e minhas metades

amor,
assinado: Mana

sexta-feira, 14 de maio de 2010

Carta - irmãs feitas

Querida menina,

Sei que nos encontramos rapidamente essa semana, por um acaso e talvez uma vontade do universo também. Encontrar-te na rampa entre pensamentos soltos foi, como todos os encontros nossos, uma alegria colorida. Você está cada dia mais linda, como dá? O mundo fica até sem jeito...
Lembro do primeiro dia em que nos vimos: "Ela é quem vai trabalhar com você, achei que vocês combinavam". E que bom ter sua parceria todas as tardes, ter sua presença tranquila e confiante. E que ano aquele... conhecer, arriscar, rir, confidenciar, esperar, respirar e o exame, a descoberta de um ser que se fazia dentro de ti, um ser feito de amor, de promessas de almas apaixonadas... Menina, suas histórias são para mim de morango, de vaga-lumes, de coisas plenas e belas.
Eu adorava ser confundida contigo... Às vezes acontece ainda, e sinto um orgulho calmo e sorridente. Afinal você é um dos seres mais lindos e amorosos que já conheci!
Mesmo sem a convivência, nos sentimos próximas, nos carregamos dentro e os hiatos que acontecem não me tiram, nem diminuem o amor que sinto por ti. Não tenha receio, eu rego sempre a plantinha e você vai regar também ;-)
Seu abraço é o abraço mais inteiro que já experimentei. Você abre um universo inteiro, a alma voa e se sente protegida.
Saiba que estou aqui/aí sempre, porque como disse o poeta "a vida é a arte do encontro, embora haja tantos desencontros pela vida". E nosso amor, minha menina, é uma poesia.

um cheiro,
assinado: sua Flor

domingo, 24 de janeiro de 2010

Carta - aprender

Querido dançarino e professor,

Quero lhe agradecer por todas as aulas. Lembro da primeira: seu jeito engraçado e forte, lembro de me perguntar se eu comia beterraba, mocotó ou vatapá, de mandar entreabrir os lábios, respirar. Eu precisava desenvolver força e conforto na força e você logo percebeu isso.
Nesse tempo em que aprendi contigo, saí das aulas com a sensação de saciedade. Andava pelas ruas saboreando esses momentos que ficavam ecoando pela noite de quinta-feira.
Faz tempo que quero compartilhar contigo essa admiração, mas me sentia encabulada. Hoje, ao saber que você ficará um bom tempo longe, chorei. E percebi o quanto te conhecer e fazer parte das suas aulas foi transformador.
Você é o professor em que reconheço as características que Paulo Freire defende como sendo essenciais para um bom professor: gosta de fazer e aprender, tem amorosidade ao ensino, é humilde e tolerante, coerente e manifesta esperança, no sentido de agir para modificar.
Essas qualidades são inspiradoras e levo comigo na vida, para minha sala de aula e com meus pequenos...
Eu acrescento mais uma qualidade: você é presente. Está inteiro e entregue. Está atento, dança lúcido. Essa presença em cada movimento, bronca e muita brincadeira gera sorriso, solidariedade, cooperação e leveza.

Querido professor, agradeço a oportunidade de conhecê-lo. Foi um prazer terno e imenso.
Que esse novo movimento em sua vida seja muito feliz e que você continue beneficiando muitos seres!

todo carinho e gratidão,
assinado: Eu - aprendiz

segunda-feira, 14 de setembro de 2009

Carta - parcerias

Querido professor,

Somos colegas de trabalho, nos encontramos na sala para tomar um chá ou café, pelos corredores atropelados de cadernos, entre um sinal e outro, e em algumas reuniões - que saibamos nós, queremos que seja produtiva, útil e de grande aprendizado.
Lemos textos, discutimos, citamos trechos de poesia, crônica, identificamos imagens, quadros, propomos relações, falamos e escrevemos bonito... Temos grandes ideias, inventamos um produto final, realmente nos empolgamos com o projeto ou seja lá o nome que se queira dar.
Ao amanhecer o dia, somos enfeitiçados pelo sinal, pelo burburinho fundo dos estudantes, pelas pilhas de atividades a corrigir, pelos planejamentos a entregar, pelas provas a elaborar... e o arrebol invade a lousa mais uma vez.
Nosso tempo sempre pouco, sempre oco, sempre apressado.
Nossos sonhos sempre muitos, sempre densos, sempre lentos.
Como caminhar por essas idiossincrasias?
Como ter o que se tem?
Convido-nos a fazer o nosso melhor. Sem ser piegas ou algo do tipo, mas olhar para as situações sem se deixar facilmente levar pelos vícios. Antes, respirar, olhar e perceber liberdades dentro desse labirinto, distanciar-se para adentrar de alma inteira.
E chegar como se cada vez fosse a primeira vez, carregada de todas as vezes.
Quer compartilhar?

um abraço bem forte,
assinado: Eu do quadro verde

domingo, 30 de agosto de 2009

Carta - mãe


Querida mãezinha,

Estou tão contente com seu novo trabalho! Sinto que você pode transformar muitos caminhos, que pode beneficiar muitos seres com seu cuidado, seus saberes, suas habilidades, seu olhar que sustenta, sua mão que acolhe, sua intuição, e principalmente, com seu feminino.
Aprendi e aprendo muito com seus passos firmes, sua vontade de salvar o mundo, e sua dedicação em cada ato.
Sabe mãezinha, você está saudável, cuide bem do seu templo, alimente-se do que é fonte de energia e de alegria para oferecer para o mundo toda essa grandeza, que não cabe em ti.
Quero que saiba que meus pés, antes tão menores do que o seu (está bem, ainda continuam menores!) sabem dos seus passos e andam, pulam, correm, dançam lenta ou entusiasticamente, mas caminham e hão de caminhar sempre vibrando e por perto, mesmo quando parecer longe.
Siga seus passos e trilhe novas aventuras!

meu amor inteiro,
assinado: Filhota

p.s. se eu fosse contar para alguém como você é, usaria emprestado as palavras de Clarissa Pínkola Estés:

"Os lobos saudáveis e as mulheres saudáveis tem certas características psíquicas em comum: percepção aguçada, espírito brincalhão e uma elevada capacidade para a devoção. Os lobos e as mulheres são gregários por natureza, curiosos, dotados de grande resistência e força. São profundamente intuitivos e tem grande preocupação para com seus filhotes, seu parceiro e sua matilha. Tem experiência em se adaptar a circunstâncias em constante mutação. Tem uma determinação feroz e extrema coragem."

domingo, 26 de julho de 2009

Carta - pequenos

Queridos pequenos,

As férias estão quase no fim, e o frio veio trazer mais vontade de ficar encolhida embaixo das cobertas tomando um chá bem quentinho! Como vocês estão? Quem ficou por aqui vai voltar branquinho, mas quem viajou para outros lugares talvez traga umas marquinhas de sol!
Eu posso contar que fiquei por aqui, então estou bem branquinha ;-) Mas dancei bastante e aprendi umas brincadeiras que quero muito fazer junto com vocês. Vamos continuar nossas rodas de conversa, história, brincadeiras, jogos, pesquisa... e vamos inventar outros tipos de rodas também!
Sonhei com vocês alguns dias, e lembrei de cada rostinho! Estive em alguns lugares da nossa cidade, fui ao centro histórico, e lembrei daquele dia em que uma chuva muito forte nos fez voltar à escola antes de completar todo o roteiro de estudo de meio! Como ficamos chateados, né? Mas pudemos ver como alguns planejamentos que temos, simplesmente podem não acontecer. Estudamos, nos preparamos, vimos mapas, mapas por satélite e cabrum! Isso porque não temos controle, sabem? E não é só em relação à chuva, mas em relação à cada segundo que se faz em nossas vidas. Não contamos com algumas trovoadas ou com algum inseto que surge no caminho.
Temos mais alguns meses juntos, dia-a-dia, vida-a-vida, e percebo que nossa cumplicidade aumenta e que temos a possibilidade de nos nascer a cada segunda-feira ;-)
Espero vocês daqui uns dias na nossa sala que é testemunha das nossas risadas e maluquices no caminho do aprender!

um beijo bem grande e apertado!
assinado: Eu, aprendiz de nós!

quarta-feira, 15 de julho de 2009

Inspirações IV

"[...] não há a menor razão para afirmar que a noção de "eu" deve ser aplicada a mim e não a outro. "Eu" e "outro" não são nada mais que uma questão de conceitos rotulados. O meu "eu" é o "outro" para outra pessoa, e quem para mim é o "outro" é o "eu" de outra pessoa.

As noções de "aqui" e "lá" são meros pontos de vista, designados pela mente, um em dependência do outro. Não há algo como um "aqui" absoluto ou um "lá" absoluto. É apenas uma questão de atribuição. E, assim, sobre esse ponto crucial, o Dharma ensina que quando o "eu" é atribuído como sendo os outros -- especificamente, seres sencientes -- a atitude de aceitá-los e vê-los como nós mesmos vai surgir naturalmente.

É assim que Budas e Bodisatvas reivindicam os seres sencientes como sendo eles mesmos, do modo explicado acima. Então, mesmo a mais leve dor dos outros, para eles é como se todos os seus corpos estivessem em chamas. E eles não têm a menor hesitação nisso, como quando Buda afirmou ser o cisne que Devadatta derrubou com uma flecha."

Kunzang Pelden (Tibete, 1872-1943)